Que os B-52's são parte importante de minha formação musical, todo mundo (ao menos que me conhece) já sabe. Então nem preciso desenvolver o assunto aqui.
O lance é que hoje alguém desencavou essa versão de "Queen of Las Vegas" no Facebook e me chamou a atenção. A verdade é que, mesmo tendo-a na caixa "Nude on the Moon: The B-52's Anthology" (aliás, autografada - hehehe), eu não tinha dado a devida bola.
David Byrne, amigo da banda, foi recrutado para produzir o terceiro disco dos B-52's - chamado Mesopotamia. Seria a grande guinada de uma banda new wave engraçadinha com algum potencial para, quem sabe, tornar-se "algo sério" - uma art band ou algo do tipo, sei lá. Produtor e banda tiveram suas divergências e só 6 (de 10 músicas) foram finalizadas. A Warner Bros. resolveu lançá-las em 1982 como um EP para bancar os custos, e diz a lenda que rodam por aí edições diferentes do disco, dependendo da prensagem. Quando foi relançado em CD nos anos 1990 juntaram-o com "Party Mix!" (um EP de... remixes, claro) e esta seria uma edição mais "limpa" que a originalmente idealizada por Byrne. Foi a versão que ouvi primeiro, lá nos idos de 1994 - só conseguiria o mesmo em vinil anos depois, e confesso que nem lembro o quão diferente era essa tiragem nacional em relação ao CD. Pra quem prefere as mixagens originais ou nunca as ouviu, estas versões estão na rede.
O EP é considerado por muitos fãs como um passo em falso na carreira dos B-52's. Críticos dizem que foi um esforço em vão, enquanto fãs de David Byrne preferem achar que este foi o melhor trabalho lançado pela banda. Independente da briga entre partes, eu gosto bastante do Mesopotamia - tanto a versão "clean" do CD como as mixagens originais do Byrne, com mais efeitos, dubs e canções mais longas. Não tem uma faixa que eu ache ruim - aliás, tem três de minhas faixas favoritas da banda, "Loveland", "Deep Sleep" e "Nip it in the Bud". Os arranjos são claramente mais elaborados que os dos discos anteriores, além de um aspecto mais "profissa" nos instrumentos usados - se antes os B's tinham teclados furrecas e walkie-talkies, agora tinham metais, percussão e acordeom. E é aí que (acho) a porca torce o rabo: parece que Byrne (que na mesma época estava fazendo o seu "The Catherine Wheel") não soube separar o que era interesse seu do da banda. Isso é ilustrado muito bem pela primeira versão de "Queen of Las Vegas", produzida por ele e que nunca tinha visto a luz do dia até sair na antologia citada no início do post, lançada em 2002:
A música é boa? MUITO. O problema é que ela soa Talking Heads, David Byrne... qualquer coisa que não B-52's. Se alguém dissesse que é uma música perdida dos Heads com vocais de Kate Pierson e Cindy Wilson (cujas vozes, de fato, são inconfundíveis), era capaz de ter gente acreditando.
"Queen of Las Vegas" saiu oficialmente (e bem diferente da primeira versão) no (agora sim) terceiro disco da banda, "Whammy!", produzido por Steven Stanley e lançado em 1983. Outro disco que não saiu exatamente como a banda gostaria, já que a ideia de Ricky Wilson e Keith Strickland era fazer um disco totalmente voltado para as pistas, de faixa única. A gravadora não aprovou, mas permitiu que abusassem do uso de sintetizadores e baterias eletrônicas. Um disco que foi razoavelmente bem recebido por público e crítica - e que contém a faixa mais famosa da banda em terras brazucas, "Legal Tender".
No que diz respeito a "Queen of Las Vegas", a primeira versão é mais grooveada, enquanto a segunda é mais dramática, mas sem deixar de ser também dançante. Pra mim, é difícil comparar - ambas tem o seu charme. Qual delas é mais B-52's? Engraçado, pra mim nenhuma das duas se identifica com o "velho" B-52's - dos dois primeiros albums - e nem com a banda que voltaria tempos depois, após a morte de Ricky Wilson. Curioso ver o papel de um produtor em momentos como esse, a que ponto ele pode mexer com a identidade de uma banda - e até que ponto isso é o melhor a ser feito... ou não.
Me lembrou o papo que tive com meu hômi outro dia, sobre como os melhores albums de certos artistas foram feitos quando estes estavam sob o pulso rígido de um produtor ou gravadora, enquanto trabalhos mais fracos/irrelevantes foram feitos logo quando estes tinham total liberdade para fazerem o que bem entendem. Mas isso é conversa pra outro dia... ;)
- Let me tell you I got the system,
Me lembrou o papo que tive com meu hômi outro dia, sobre como os melhores albums de certos artistas foram feitos quando estes estavam sob o pulso rígido de um produtor ou gravadora, enquanto trabalhos mais fracos/irrelevantes foram feitos logo quando estes tinham total liberdade para fazerem o que bem entendem. Mas isso é conversa pra outro dia... ;)
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Srta. Tuppence Crowley
