Sempre ansiosa, fui o tipo de criança que roía as unhas. Assim, de roer "até o sabugo", como diria a minha mãe. Provavelmente isso aconteceu até o dia em que, de tanto roer as unhas das mãos, na falta do que roer comecei a cogitar roer as unhas dos pés - algo que felizmente não consegui graças à minha falta de elasticidade. Foi quando vi que não dava mais pra continuar assim. Não lembro de ter utilizado alguma técnica estapafúrdia para acabar com minha mania, simplesmente parei. Melhor dizendo, eu substituí o mau hábito: parei de roer unhas, mas virei mestra em "tirar pelinhas" com os dentes, destruindo cutículas e fazendo verdadeiros buracos nos dedos dependendo da ocasião (e da ansiedade), algo que só diminuiu nos cinco anos em que usei aparelho nos dentes. Já tentei usar tudo quanto é tipo de creminhos e tals, mas o que realmente tem me ajudado a vencer a boca nervosa é fazer as unhas mais de uma vez por semana - minhas cutículas (bem como as unhas) crescem bem rápido, então é só eu sentir as pelinhas levantando e incomodando que lá vou eu com meu kit fazer as unhas. Virou terapêutico. Continuei a substituir o mau hábito.
Tudo começou em algum lugar de 1994/1995, quando minha mãe tinha uma manicure que toda semana vinha até a nossa casa. Porque, verdade seja dita, todas as (poucas) vezes que fiz manicure fora de casa eu sempre dava um jeito de detonar várias unhas recém-pintadas (fosse na carteira na hora de pagar, fosse na hora de pegar a chave de casa na bolsa etc.) e o serviço pelo qual estava pagando ia por água abaixo. Assim, nunca entendi muito bem como a mulherada consegue tal façanha, e via esta manicure a domicílio não como luxo, mas como algo que fazia mais sentido. Por outro lado, não conseguia entender minha mãe: apesar de toda semana estar com as unhas impecáveis, ela teimava em usar esmaltes que não mostravam a que vieram. Sempre discreta (e elegante, ao menos MUITO mais que sua filha oi), mamãe wonderfool nunca foi chegada nos esmaltes chamativos, limitando-se a usar os praticamente transparentes, brancos ou tom de pele (na época nem era "nude", era "tom natural") ou francesinhas, o máximo da ousadia para ela. Quando resolvia colocar um vermelhinho "para fortalecer a unha" (ainda rola essa história?) era um drama e ela se sentia um alienígena. Mesmo pagando uma profissional para ter o trabalho bem feito, mais parecia que minha mãe raramente fazia as unhas. Isso não entrava na minha cabeça de jeito nenhum.
Enfm, nessa época comecei a fazer as unhas mesmo, por sugestão materna. Foi quando minhas cutículas começaram a ser cutucadas semanalmente e a partir daí que começou minha coisa com esmaltes também. Sempre gostei de esmaltes, o problema é que a essas alturas do campeonato eu queria cores (amarelo - por causa da Madonna dos '80s - , abóbora, verde, TODO e qualquer tipo de azul...) que não achava em lugar nenhum, aí não tinha graça. Até então, eu no máximo lixava e passava uma base eu mesma. E pintava de vez em quando. Sei lá, nem lembro. A manicure a domicílio não tinha lá uma graaande variedade de cores (mesmo porque na época nem tinha tantas marcas e o catálogo de cores apresentava poucas novidades), mas mesmo assim eu queria algo diferente, o jeito era improvisar: sempre botava algum esmalte com efeito, ou glitter, ou qualquer coisa por cima. Algo que eu fazia muito era pegar alguma cor escura (tipo pink, ou vinho) e passar um cintilante furta-cor azulado anos 80 (sempre fui chegada na new wavezice, como o Raio Laser da Colorama, infelizmente fora de catálogo agora). E quanto mais fazia as unhas, mais gostava da coisa, da busca de combinações nada a ver – até que, de repente, as cores da manicure não eram o bastante. Foi quando comecei a procurar mais esmaltes nas lojinhas da cidade, por sugestão de uma garota super gente boa e estilosa que trabalhava numa loja de discos daqui. Daqueles momentos em que você se dá conta de que as manicures tem as cores que mais agradam, mas que não são necessariamente as que mais agradam a você, e que apesar de (na época) as cores clarinhas e discretas fossem as que ocupavam mais espaço nas prateleiras, sempre tinha as underdogs escondidas lá no fundo que ninguém dava bola – e que acabavam sendo as mais interessantes. Quanto mais esquisito o esmalte, mais esdrúxula a marca, mais feliz eu ficava. Às vezes o esmalte nem era bonito, o que importava para mim era usar o que ninguém mais usaria. Não demorou para eu comprar também meus primeiros esmaltes importados e os de farpinhas holográficas, tão logo surgiram as primeiras lojas de $1.99 – na época tratava-se de $1.99 dólares e só vendiam quinquilharias importadas, a maioria artigos de papelaria, balas e chocolates, alguns brinquedos, muita maquiagem e esmaltes - e assim, em pouco tempo, eu já tinha o meu próprio repertório de esmaltes na luta contra o sucesso do esmalte Misturinha da Colorama - meu inimigo número um, o Esmalte Mais Sem Graça do Universo.
Só que a manicure sempre vinha aos sábados de manhã, e eu comecei a sair nas noites de sexta (adolescentes..), sempre ficando com preguiça de acordar cedo no dia seguinte. Assim surgiu a necessidade de fazer as unhas eu mesma, para não depender do horário de outros. Aprendi da mesma forma que aprendi a usar o delineador: treinando em casa várias de vezes, quando não tinha nada melhor pra fazer. Moleza! ;D
Mas só isso não era o bastante. Depois que você começa a se embrenhar pelo mundo dos esmaltes fica muito difícil de sair - impossível resistir ao comichão de buscar mais, de comparar cores novas com antigas, ou quem sabe ver uma amiguinha de longa data que estava fora de catálogo ter o seu retorno triunfal para a nova geração, nem que seja para dizer que a "última novidade" não é tão novidade assim. Este ano mesmo venci dois "traumas" que tinha desde 1996: um, o de misturar esmaltes eu mesma para fazer novas cores (não confundir com o esmalte Misturinha da Colorama, que continua sendo meu inimigo número um, haha), sabe-se lá pq eu tentei fazê-los antes e não dava certo de jeito nenhum; o segundo, foi finalmente comprar um esmalte craquelado e vê-lo agindo em minhas unhas, o que mais de década atrás era privilégio apenas de quem conseguia importar com facilidade (o que não era o meu caso).
E assim como o craquelado, os matte/"emborrachados", os fluorescentes, os cromados e as bases transparentes com glitter e filetinhos e/ou estrelas holográficas (estas sempre um PORRE pra passar e limpar), já foram hits de tempos passados - vale lembrar que em algum lugar dos anos 1990 surgiu o que alguns chamam de "cultura Clubber", que primava pelas cores e pelo exagero. E qualquer cena, por mais underground que seja, eventualmente acaba flertando com o grande público. Mas eram poucas que pescavam essas coisas, tanto que várias vezes me paravam na rua para saber que esmalte eu estava usando - e eram esmaltes "comuns", fáceis de achar... mas que ninguém dava bola. Ou então eram de marcas que ninguém sabia que fazia esmalte, o que sempre achei muito estranho: marcas como Natura, O Boticário, Contém 1g... que ninguém sabia que às vezes surgiam com cores lindas. Especialmente a Contém 1g, que fez uma das linhas mais legais que já vi no Brasil na década passada (refresque a memória aqui), nem era tão cara e dizem que pararam com a produção porque ninguém comprava - POR QUE DIABOS NINGUÉM COMPRAVA, MAEL DELS?!?!?!?! tsc tsc...
Ainda bem que várias coisas foram melhoradas. Tempos atrás a Risqué lançou um esmalte que (em teoria) brilhava no escuro (vinha com uns adesivinhos tb), mas que era uma grande enganação - principalmente se compararmos com os de hoje. Assim como os com efeito 3D, dá uma olhada nos catálogos antigos nesse blog aqui. E outros que na época eram chamados de simplesmente de glitter, mas que muitos tentam hoje em dia passar por flocados (e NÃO SÃO, como essa imitação barata de Nfu Oh aqui, só base transparente com pedacinhos brilhantes - detalhes aqui). E continuo acompanhando os lançamentos com o mesmo entusiasmo de quando comprei meu primeiro esmalte preto (importado, da Artmatic - que tenho guardado até hoje) e o cobri com o Geada para criar um esmalte grafite, ou de quando comprei meu primeiro esmalte amarelo (da marca Elba, um amarelo mais claro que o Cajá Manga da Impala, quase branco - mesmo assim, só pelo fato de ser amarelo fui ao delírio), de quando comprei meus primeiros Big Universo em 1997 (?) numa loja escondidíssima (foram os Hidra e Hera, azul e verde metálicos que hoje em dia acho meio cafonas, mas que comprei frascos novos só para guardá-los de lembrança), além da primeira vez que vi o Turquesa (2006?), até hoje um de meus esmaltes favoritos e uma das cores mais bonitas que já vi! Tenho poucos sobreviventes da era de ouro, joguei muita coisa fora (senão, teria mais de mil vidros em casa, provavelmente), mas tive esmaltes da Xuxa (tinha um azulão e um abóbora bem legais), da Angélica (uma linha de prata/grafite/chumbo que eu amava), Impala Neon (que de neon só tinha o nome), Avon, Contém 1g (com um dos azuis petróleo mais bonitos évah)... além dos importados que às vezes apareciam, da Kiss (acho que nem existe mais essa marca, mas o Disco Blue deles mudou a minha vida), a Wet 'n' Wild (que tinha o famigerado 411c, um rosa anos 50 cor de mobília de Barbie que eu chamava carinhosamente de Rosa Cafona e que só sosseguei quando consegui emulá-lo meses atrás), Nivea (tenho até hoje o Tortoise-alguma-coisa, lindo demais) e as marcas obscuras. Vixe, mais de quinze anos de buscas pelo esmalte perfeito não é pouca coisa não - sem contar a infância passada fuçando a caixa de esmaltes e maquiagens de quem deixasse. E o vício só aumenta.
Por isso mesmo não me espanto com o boom de esmaltes que surgiu de uns 2 anos pra cá, razões tem de sobra. Não são caros como sapatos e bolsas (a não ser que você arrisque colocar na ponta do lápis no final do mês os 200 esmaltes comprados num momento de frenesi, hah!) e não são como uma peça de roupa que você deixa de usar porque engordou ou porque está "fora de moda". É feminino, cheio de combinações e possibilidades - apesar de eu não gostar de adesivos, carimbos, desenhos de flores, nuvens, bichinhos e frescuradas assim, gosto é de combinações de cores/texturas. É democrático, uma forma de mostrar um pouco de sua personalidade ou mesmo o seu estado de espírito naquele momento (sim, eu já tive "esmaltes do humor" que mudavam de cor, lá em 1999 - às vezes eles ainda dão as caras por aí!)... Tanto que, depois de todos esses anos consegui convencer minha mãe. Ela acabou se acostumando com a ideia e eventualmente rendeu-se, e agora se sente uma alien quando resolve botar um clarinho nas mãos e/ou nos pés (!!).
E as que acham que esmaltes diferentes viraram lugar comum, não se preocupem. Nós, "excêntricas", sempre acharemos uma forma de nos diferenciar dentre as nail freaks - NUNCA aderir à tendência "nude" já é um bom começo. ;)
Quem quiser continuar a viagem ao Túnel do Tempo da esmaltada toda, achei uns blogs/flickrs bem legais com embalagens do meu tem- digo, do tempo da minha avó!
http://www.flickr.com/photos/nani_milla/4349441060/in/photostream/
http://tatices.com/wordpress/?p=369#comment-2265
http://esmaltesdaana.com/?p=8489#more-8489
http://www.ciadoesmalte.com/2010/05/antiguidades-do-fundo-do-bau.html
http://unhabonita.com.br/antiguidades-e-recordacoes-esmaltes-do-fundo-do-bau/
http://esmaltesdaana.com/?p=8204#more-8204
http://esmaltesdaana.com/?p=7940
http://esmaltesdaana.com/?p=9092
(nossa, eu tive MUITOS desses... "Colorama 1010" é do meu tempo de criança ainda morando no Méier e indo pra Iguaba nos finais de semana! hahahahaha)
- Another nail in my heart
Sra. T. Beresford
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| Os BU Hera e Hidra que comprei recentemente para relembrar as unhas dos velhos tempos. |
| A coleção Impala Cromo (2005?) bem que podia voltar, é muito linda |
| Meus queridos esmaltes Kiss (junto com o top coat de secagem ultra-rápida): em 1997, o Disco Blue (segundo esq-dir) virou meu esmalte favorito e até hoje está entre os top 10. |
Quem quiser continuar a viagem ao Túnel do Tempo da esmaltada toda, achei uns blogs/flickrs bem legais com embalagens do meu tem- digo, do tempo da minha avó!
http://www.flickr.com/photos/nani_milla/4349441060/in/photostream/
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(nossa, eu tive MUITOS desses... "Colorama 1010" é do meu tempo de criança ainda morando no Méier e indo pra Iguaba nos finais de semana! hahahahaha)
- Another nail in my heart
Sra. T. Beresford


3 comentários:
Ah, adorei!
Essa minha coisa com esmaltes é bastante recente, se for comparar com você. Lembro de ter comprado meus primeiros Risqué em 2006 (ou 2007?), antes eu não dava bola nenhuma para unhas (mas, graças a Paul, nunca fui de roer, heheh). Até acho que você tem culpa no cartório. Lembro de ter te visto com com esse azulzinho da foto do new york dolls e ter amado! *-*
Ahh, mas o da foto do NY Dolls é o próprio Turquesa da BU!! Esse esmalte não tem como!
Se um dia resolverem parar de fabricá-lo o que vai ter de mulher reclamando não vai ser pouca coisa... Esse eu ainda tenho o primeiro vidrinho que comprei, por 50 centavos na 25 de Março às beiras de ficar fora da validade.
Anaaaaa PRECISAMOS ir à 25!!! =P
Gostei da sua postagem. Só não sabia que a Natura tbém fazia esmaltes (não fazem mais, né? nunca vi).
Faz tempo que quero escrever sobre minhas experiências c/ esmaltes no blog, é só a preguiça deixar. ;)
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